Terra Firme


Lilian Fraigi, 2018


At first sight, the exuberance of the landscapes represented by the artist Pedro Vaz influenced directly our soul, the harmony of the forms, light and the chromatic calmness, create in us a sense of empathy. We know this place, it is expensive, precious and pristine. With a closer look at the forms, we distance ourselves from the first ones, elementary questions that evoke nature, to enter a field of transition, of approach. Pedro Vaz is part of a group of artists that has been systematically exploring the connection between nature and culture by generating different sensibilities from those generated by the colonization of natural spaces.  

At the Adolpho Ducke Forest Reserve the work Terra Firme, in the context of the artist's residency at LABVERDE - Program for Artistic Immersion in the Amazon, is part of a series of works in which the artist tries to capture the areas understood as "natural" to the planet, through a poetic and epistemological exercise of the landscape. The aesthetic concern for the reconstruction of the Forest by Vaz, suggests the diminution of the concept of landscape, as a symbolic mental construction essentially human, defended throughout the history of art.  

In other times the artist looked at nature through the window, in which the frame represented the distance between man and nature. With Land Art interventions the artist makes it clear his passage through the environment, reinforcing the modern heritage and the dichotomy between subject and object. With an awareness that the images are not just only a projection of the observer, but also not only an object that can be molded, Pedro Vaz immerses himself in the landscape of the Amazon and lets his body become the object of the Forest. Terra Firme is, therefore, the result of the establishment of the self as an artist, which produces the landscape and is at the same generated by it. 

To understand the body as an extension of the Forest, to be immersed, is not just to perceive the horizon of space or not just to know where it begins or ends. In an attempt to make an inventory of space, the artist proposes to work with his body as a measure. His gaze searches in multiple directions, but is almost unable to define a form. 

Everything is part of a whole, everything folds into itself, and may only be understood as a great abstract unity.  

The detachment from reality and the inexistence of singular forms in nature proposed by Terra Firme is configured as an exercise that takes place in the extended field of the Forest.

Light and sound reveal themselves as protagonists, but also as subjects in the construction of the image. 

It is the light and the luminosity, allied to the sound and the several sound spectrums, that spatially organize the whole image captured by the camera allows us to make sense of this narrative. 

We perceive the passage of time with the decrease in daylight and the passage of a silent rain, as if the apparatus functioned as an eyewitness to the artist's body being driven by the natural phenomena of space. 

When we feel that we are lost in the abstraction of forms, we succumb into memory, emotions and feelings to give meaning to images. The artist brings us back to photographic reality and imposes his sudden presence on us. He then reveals a part of the landscape and the intimate presence of his body in space, deconstructing the naturalness of the images and re-establishing symbolic control.   

The pictorial awareness of space then is regulated by this dance of construction, the deconstruction of the reality of space, which is circumscribed in a series of expressed metamorphoses of the transformation of landscape into image. Image into memory, of memory into emotion, of emotion into reason, of reason into instinct, into a movement of eternal return. 

From this intricate rhythm, which oscillates between the essence of forms and the experience of forms, another paradigm of looking at the world becomes visible, in which practice starts from the essential desire to coexist and where the artist is not only interested in representing, but also to relate to the world.

To blend in, interact and exchange energy with the non-human, is as important in the Pedro Vaz's creative process of works, as it is in the finished artistic object itself. The experience of the process is built by a strong sense of presence. It is this presence of the artist's body, transformed by the environment time and space, which is transcribed in the set of Terra Firme techniques.

From the mixing of the several techniques, between pictorial memory, photographic realism, camera movement and field recording, the artist then creates a new contemplative media - a transgressive object of experience. The work takes place in an hermetic exhibition space, a capsule of transfiguration of time, to infuse the viewer with the same sense of presence in the space-time of the forest. From the physical practice the discourse is constructed, and from the discourse towards the self, as if the object art was taken in to the place of nature.

By highlighting and documenting the cycle of life, Pedro Vaz tries to sensitize the world. In times of climate crisis, where mankind is the driving force of the earth's geological transformation, the artist presents us with another way of prevailing and representing nature. It is, therefore, nowadays a work with a relevant political dimension, where the landscape is built from the conscious negotiation between artist, nature and memory.


*Terra Firme forest is one of the three types of vegetation of the Amazon forest, located in higher regions of the landscape, where no flooding occurs. It is characterized by the large size of the trees, the formation of canopy, high rate of diversity and low penetration of sunlight inside.


Terra Firme 


Lilian Fraigi, 2018


À primeira vista, a exuberância das paisagens representadas pelo artista Pedro Vaz contagia nossa alma, a harmonia das formas, a captura da luz e a calma cromática nos despertam um sentimento de empatia. Conhecemos esse lugar, ele nos é caro, precioso e pristino. Um olhar mais apurado no conjunto das formas, vamos nos distanciando das questões primeiras, elementares que evocam a natureza, para adentrarmos em um campo de transição, de acercamento. Pedro Vaz faz parte de um grupo de artistas que vem explorando sistematicamente a aproximação entre natureza e cultura para tornar possível sensibilidades distintas daquelas geradas a partir da colonização dos espaços naturais.  

A obra Terra Firme*, realizada na Reserva Florestal Adolpho Ducke, no contexto da participação do artista na residência LABVERDE – Programa de Imersão Artística na Amazônia, é parte de um conjunto de trabalhos nos quais o artista tenta capturar os espaços compreendidos como “naturais” do planeta, por meio de um exercício poético e epistemológico da paisagem. A preocupação estética formal na reconstrução da Floresta por Vaz, evidencia a dissolução do conceito de paisagem, enquanto construção simbólica mental essencialmente humana, defendida ao longo da história da arte.  

Se antes o artista olhava a natureza através da janela, onde o frame representava a distância entre o homem e a natureza, com as intervenções da Landart o artista deixa evidente sua passagem pelo ambiente, reforçando a herança moderna e a dicotomia entre o sujeito e o objeto. Consciente que a paisagem não é apenas uma projeção de um sujeito observador, como também não é somente um objeto a ser moldado, Pedro Vaz mergulha na paisagem da Amazônia e deixa seu corpo ser o objeto da Floresta. Terra Firme é, portanto, o resultado da instituição do próprio sujeito enquanto artista, como aquilo que produz a paisagem e é produzido por ela. 

Entender o corpo como extensão da Floresta, estar imerso, é não perceber o horizonte do espaço, não saber onde ele começa ou termina. Na tentativa de realizar um inventário do espaço, o artista propõe trabalhar com a escala de seu corpo. Seu olhar procura em múltiplas direções, mas é quase incapaz de atribuir forma. Tudo é parte de um todo, tudo se dobra em si mesmo, e só pode ser compreendido como uma grande unidade abstrata.  

O afastamento da realidade e a inexistência da singularidade das formas da natureza proposto em Terra Firme, se configuram como um exercício no campo expandido da Floresta. A luz e o som ambiente se revelam como protagonistas, mas também como sujeitos na construção da imagem. É a luz e a luminosidade, aliada ao som e aos vários espectros sonoros, que organizam espacialmente toda a imagem captada pela câmara e nos possibilitando o sentido da narrativa. Percebemos a passagem do tempo com o cair da luz do dia e com a passagem de uma chuva furtiva, como se o aparato funcionasse como uma testemunha ocular do corpo do artista sendo conduzido pelos fenômenos naturais do espaço. 

Quando sentimos que estamos perdidos na abstração das formas, sucumbimos à memória, à emoção e ao sentimento para darmos sentido às imagens, o artista nos traz de volta à realidade fotográfica e nos impõe sua presença brusca. Revela então um estrato da paisagem e a presença íntima de seu corpo no espaço, desconstruindo a naturalidade das imagens e restabelecendo o controle simbólico.    

A construção pictórica do espaço obedece então a essa dança de construção, desconstrução da realidade, que se circunscreve em uma série de metamorfoses expressas da transformação da paisagem em imagem, da imagem em memória, da memória em emoção, da emoção em razão, da razão em instinto, em um movimento de eterno retorno. Desse intrincado ritmo, que oscila entre a essência das formas e a experiência das formas, se torna visível outra lógica de projetar o mundo, onde o artista não está só interessado em representar, mas bem em se relacionar com o mundo, cuja prática parte da vontade essencial de coexistir. 

Imergir, interagir e trocar energia com o não-humano, é tão importante no processo de construção das obras de Pedro Vaz, quanto o objeto artístico acabado. E a experiência do processo é construída por um sentido brutal de presença. É a presença do corpo do artista, afetado pela temporalidade e espacialidade do ambiente, que é transcrita em um conjunto de técnicas em Terra Firme.  

Do entrecruzamento das técnicas, que transitam entre a memória pictórica, o realismo fotográfico, o movimento de câmara e o field recording, o artista cria então um novo suporte contemplativo - um objeto transgressor de experiência. A obra se dá em um espaço expositivo hermético, uma capsula de transfiguração do tempo, para imbuir no espectador o mesmo sentido de presença no espaço-tempo da floresta. Da prática física se constrói o discurso, e do discurso rumo a si mesmo, como se o objeto arte desse conta de assumir o lugar da natureza.  

Ao evidenciar e documentar o ciclo da vida, Pedro Vaz tenta sensibilizar o mundo. Em tempos de crise climática, onde o homem é a força motriz da transformação geológica da terra, o artista nos apresenta outro modo de existir e representar a natureza. É, portanto, um trabalho com uma dimensão política relevante na atualidade, onde a paisagem é construída a partir da negociação consciente entre artista, natureza e memória.  


*Floresta de terra firme é um dos três tipos de vegetação da floresta Amazônica, situadas em regiões mais alta do relevo, onde não ocorrem alagamento. Caracteriza-se pelo grande porte de árvores, formação de dossel, alta taxa de diversidade e baixa penetração de luz solar no seu interior. 

 

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